A Comissão de Trabalhadores (CT)
reconhece a dificuldade e os desafios sentidos na comunicação com os
Trabalhadores ao longo deste mandato. Não podemos dissociar estas dificuldades
das entropias criadas pela Empresa, tema que abordaremos detalhadamente num
comunicado futuro.
Ao mencionarmos o “Passado”, não
pretendemos recuar ao contexto histórico de 1807, nem traçar qualquer
paralelismo com a atual concessão. O nosso foco é o Passado Recente: o
balanço deste mandato, a análise do Presente e a antecipação do que
projetamos para o Futuro.
Apesar dos obstáculos, este foi um
período de atividade intensa. Defendemos os Vossos interesses em diversas
frentes, desde os temas que partilhámos abertamente convosco, até àqueles que,
por dever de confidencialidade, exigiram uma atuação mais reservada, mas
igualmente firme.
Neste comunicado, apresentamos um resumo
transversal do trabalho desenvolvido nos diversos fóruns onde marcámos
presença.
Fundo
de Pensões
Prioritário continua a ser o processo
judicial agilizado pela CT, no qual requeremos a reposição das contribuições
para o Fundo de Pensões, suspensas unilateralmente pela empresa.
Desde a nossa última atualização, não houve
novos desenvolvimentos processuais. Seguimos, por isso, a aguardar a emissão
do despacho saneador-sentença.
Partilhamos da vossa frustração perante
a morosidade da justiça. No entanto, entendemos que qualquer juízo de valor ou
suspeição pública seria contraproducente para o desfecho da ação. Reiteramos a
nossa confiança de que, apesar da lentidão, a Justiça será feita e que os
direitos dos Trabalhadores serão salvaguardados com a reposição integral das
contribuições em falta.
Plano
de benefícios flexíveis- Flex
Intimamente ligado à questão do Fundo de
Pensões está o Plano Flex. Como clarificámos nos Comunicados nº 02 e
03/2024, a CT não se opõe, por princípio, à existência de programas de
benefícios flexíveis; contestámos, sim, o modelo adotado e a sua
interdependência/financiamento no Fundo de Pensões.
É fundamental relembrar: quando a
empresa suspendeu as contribuições para o Fundo de Pensões, prometeu a sua
reposição em 2024. Em momento algum foi anunciada a substituição dessas
contribuições por um plano de benefícios.
Não aceitamos e deixámos o nosso
protesto registado para memória futura: que um direito adquirido e
contratualizado seja convertido numa mera liberalidade de gestão. Esta decisão,
que consideramos um ato de autocracia gestionária por parte da Comissão
Executiva, retira segurança aos Trabalhadores: ao contrário do Fundo de Pensões,
o Plano Flex terá apenas a duração que esta ou qualquer outra
administração da nossa Empresa/Grupo decidir, unilateralmente, manter.
SAD-
Sistema de Avaliação e Desempenho
O Sistema de Avaliação e Desempenho,
atualmente pouco mais é que uma ferramenta de gestão com um único propósito que
se veja e percecione: travar progressões,
limitar subidas de nível e maturidades, reduzindo por essa via a massa salarial
global.
Um sistema, que “baliza” o mérito dos
Trabalhadores a uma nota média global de 3.2, com tudo o que isso implica e
envolve, distorce a realidade e desvirtua o nobre objetivo da sua função. Será
mais ou menos o mesmo que entrar num qualquer jogo sabendo à partida o
resultado.
O mais caricato é que atualmente,
ninguém se revê no modelo, nem avaliados nem avaliadores.
Embora a própria empresa tenha
reconhecido a necessidade de mudança, alterando unilateralmente as "regras
do jogo" e denunciando o Acordo de Empresa em 2019, parece agora não ter
capacidade ou vontade negocial para os compromissos necessários e conducentes à
conclusão de um novo acordo.
É consensual que o SAD é injusto para
quem trabalha, mas, aparentemente, serve na perfeição os interesses financeiros
da organização. Fica claro que, se o novo Acordo de Empresa não avança e o SAD
continua a falhar os seus desígnios, é porque as mudanças pretendidas pela Empresa
não visam nem a justiça nem o benefício dos Trabalhadores, mas apenas o seu
próprio proveito económico de retorno acionista.
Torna-se difícil compreender como uma
organização alcança resultados financeiros tão extraordinariamente expressivos,
enquanto classifica o desempenho global dos seus colaboradores como mediano.
Horários
de Trabalho
Retomamos o tema abordado no Comunicado
nº 01/2025 pela sua importância crítica e pelo impacto direto na vida de cada Trabalhador.
Decorrido algum tempo sobre a implementação da deliberação imposta pela Comissão
Executiva "Organização e gestão dos tempos de trabalho" reiteramos
todas as preocupações que manifestámos na altura.
A empresa terá certamente atingido o
pretendido, mas e os Trabalhadores?
·
Houve
melhoria na conciliação da vida profissional com a familiar? NÃO.
·
Houve
redução do risco de acidentes? NÃO
e, em vários casos, o risco foi agravado.
·
Houve
ganhos na saúde ou na produtividade? NÃO.
A esta gestão de horários acresce a
problemática do trabalho por turnos. O que observamos hoje são equipas
saturadas, desmotivadas e no limite das suas capacidades. Com efetivos abaixo
dos mínimos, as equipas estão "por um fio": as baixas sucedem-se e os
Trabalhadores com mais tempo de casa e mais experientes já só perspetivam a
saída.
Demonstra o Órgão de Gestão da Empresa
alguma preocupação real com este cenário? Pela forma como ignora estes sinais e
pela aposta persistente no Outsourcing em detrimento do Insourcing,
a resposta é, uma vez mais, negativa.
Trabalho
por Turnos
O Trabalho por Turnos é, hoje, um dos
maiores desafios do mundo laboral. Embora essencial ao funcionamento da
sociedade, é simultaneamente o regime de trabalho mais pernicioso que existe. É
um facto científico comprovado: quem trabalha por turnos tem uma esperança
média de vida inferior à de quem trabalha em regime regular. Vive menos
tempo, portanto!
No nosso Comunicado nº 06/2024,
detalhámos esta problemática e partilhámos evidência científica sobre o tema.
Infelizmente, as empresas e a nossa não é exceção continuam a desvalorizar este
regime e quem o assegura. Limitam-se a "lavar a consciência" com um
subsídio residual que em nada compensa o desgaste e os riscos de saúde
suportados.
Na
verdade, o atual modelo de Trabalho por Turnos configura um cenário "win-win"
para empresas e Estados, à custa do Trabalhador:
· As empresas aumentam os tempos de laboração a um
custo marginal;
· O Estado acaba por poupar na Segurança Social,
uma vez que estes contribuintes, devido ao desgaste precoce, tem uma esperança
de vida menor.
Apesar de ser uma luta desigual, esta CT
não baixou os braços. Durante este mandato, levámos esta preocupação
diretamente aos centros de poder: apresentámo-la aos Grupos
Parlamentares na Assembleia da República. Levámos igualmente a questão
ao Conselho de Empresa Europeu VINCI e ao Grupo “SSDC CIVIL
AVIATION, Ground Handling, Working Group" no Parlamento Europeu.
O caminho faz-se caminhando — e
continuaremos a ser a "água mole em pedra dura" até que o trabalho
por turnos seja efetivamente reconhecido e a saúde dos Trabalhadores seja
devidamente acautelada. De forma simplificada, entre outras, defendemos a
majoração do tempo de trabalho prestado no regime de turnos para efeitos de
reforma.
Alterações
ao Código de Trabalho
Relativamente
às recentes propostas de alteração ao Código do Trabalho, já detalhámos algumas
das intenções subjacentes no nosso Comunicado nº 02/2025
Enquanto
Organização Representativa dos Trabalhadores (ORT), a CT estará sempre ao lado
de quem representa, nomeadamente os Trabalhadores. É importante sublinhar que
não nos move qualquer interesse partidário; a própria heterogeneidade interna
da nossa Comissão não só garante esse distanciamento, como enriquece o debate
interno. O nosso único foco é, e será sempre, a defesa intransigente dos
interesses globais dos Trabalhadores.
Face
ao que é conhecido, a nossa preocupação é inevitável. Consideramos a proposta
atual profundamente lesiva: merece o nosso repúdio por ir em contraciclo com as
necessidades reais aqui expostas e, acima de tudo, por falhar na valorização do
trabalho e na dignificação de quem o exerce.
Audição
Parlamentar Privatização ANA
No dia
4 de junho de 2024, a CT foi ouvida na Assembleia da República, numa audição
parlamentar com a presença de todos os grupos parlamentares, sobre o processo
de privatização da ANA – Aeroportos de Portugal. Como detalhámos no Comunicado
nº 01/2024, fomos convidados a expor a realidade dos acontecimentos que
antecederam a privatização, bem como os impactos da transição do público para o
privado na vida dos Trabalhadores.
Fizemo-lo
com a frontalidade e a verdade que nos caracterizam, mantendo a coerência com
as posições assumidas por todas as Comissões de Trabalhadores desde o período
pré-privatização até hoje.
As
reações que se seguiram à nossa intervenção apenas vieram confirmar a
pertinência e o rigor das nossas declarações. Ficou provado que a voz dos
Trabalhadores e das suas ORTs democraticamente eleitas é essencial para
escrutinar decisões que afetam não só o nosso futuro, mas o património
estratégico do país.
Outsourcing-
Externalização de Serviços- A Ilusão da Eficiência
Cada vez mais, a externalização de
serviços parece ser tratada como o "Santo Graal" da gestão,
apresentada como o expoente máximo da racionalização de recursos e da
otimização financeira. No entanto, a perniciosidade desta política a médio e
longo prazo é bem conhecida. A CT tem demonstrado internamente, até à exaustão,
os perigos deste caminho, sem que se vislumbre qualquer recuo, por parte da atual
Comissão Executiva, antes pelo contrário.
Embora o outsourcing possa ter
aplicabilidade em áreas não estratégicas, em setores fundamentais ele
representa um "acidente anunciado". Se por vezes as consequências são
ligeiras, noutras podem ser absolutamente trágicas.
Observamos com profunda preocupação uma
certa "despreocupação cultural" no nosso país. Eventos como o
acidente do elevador da Glória ou o incêndio no Hospital de Ponta Delgada
teriam provocado, noutras geografias, fortes manifestações de repúdio e pedidos
de responsabilização imediata. Por cá, a tendência é para que a "culpa
morra solteira". Contexto que acaba por empoderar gestores e políticos,
incentivando-os a perpetuar estas políticas, face à impunidade que se vai
verificando.
Na
ANA, é evidente a aposta numa política de externalização massiva, com especial
e grave enfoque nas várias vertentes e ramos da Manutenção bem como
no Serviço de Luta combate a Incêndios (SLCI). Nestas áreas críticas, os
problemas agravam-se e sucedem-se. Esperamos, convictamente, nunca vir a
lamentar na nossa "casa" situações dramáticas como as que aqui
recordamos por responsabilidade destas opções de gestão.
Conselho
de Empresa Europeu (CEE)- Grupo VINCI
A nossa intervenção não se limita às
fronteiras nacionais. A CT mantém uma presença ativa e vigilante no Conselho de
Empresa Europeu (CEE) do Grupo VINCI, onde ocupamos um lugar efetivo na mesa
do Comité restrito (Bureau).
Nesse fórum internacional temos a
responsabilidade de elevar a voz dos Trabalhadores da ANA e da VINCI em
Portugal, ao mais alto nível da corporação, reportar assimetrias e decisões de
gestão que afetam a nossa operação em Portugal e onde confrontamos a estratégia
global do Grupo com a realidade local.
A nossa representação neste fórum
conhecerá, muito em breve, desenvolvimentos que fortalecerão a nossa voz junto
do Grupo. Disso daremos conhecimento numa Informação que saíra brevemente.
Participação
em fóruns Internacionais
Tivemos ainda por diversas ocasiões ao
longo do mandato a oportunidade de transmitir estas e outras preocupações de
interesses dos Trabalhadores em fóruns patrocinados pela ETUC - European
Trade Union Confederation, órgão dependente da União europeia, pela ETUI
- European Trade Union Institute e ainda na ETF - European
Transport Federation.
A título de exemplo na participação que
tivemos no Grupo “SSDC CIVIL AVIATION, Ground Handling, Working Group"
no Parlamento Europeu, focado nas questões do “lado ar” dos aeroportos, optámos
por incidir a nossa intervenção no Trabalho por Turnos/Horários de
Trabalho e na interligação e impacto direto no Safety. Por último
abordamos a questão do ruído e um outro tema que têm marcado a nossa
intervenção nestes fóruns que é a questão das partículas finas e ultrafinas.
Questão invisível, que só recentemente começou a ser tratada e reconhecida, mas
com nefasto impacto na saúde dos Trabalhadores.
Novo
Aeroporto de Lisboa _ NAL - Um Futuro de Incertezas
Quando pensámos no título Passado, Presente e Futuro para este Comunicado, o Novo
Aeroporto de Lisboa-NAL evidenciou-se imediatamente como a expressão mais
literal e preocupante do futuro incerto que se avizinha.
Enquanto o país continua a discutir
localizações e infraestruturas, a CT foca-se essencialmente, no capital Humano.
Isto é, nos Trabalhadores que irão operacionalizar e dar vida ao NAL.
O desconhecimento sobre o modelo de
transição dos atuais Recursos Humanos para a nova infraestrutura é total. Não
aceitaremos que o "Futuro" seja desenhado à revelia de quem
construiu o "Passado" e sustenta o "Presente" da ANA.
Interessa
desde logo, saber e clarificar:
·
Como
será assegurada a transição dos atuais postos de trabalho?
·
Quais
os critérios e garantias de estabilidade contratual na mudança para a
nova localização?
·
Que
política de contratação será adotada para o reforço das equipas, e
como será salvaguardada a valorização de quem já cá está?
·
Como
e quanto tempo durará a transição do Aeroporto Humberto Delgado para o NAL?
·
Quais
os serviços e Direções que não irão transitar para a nova infraestrutura?
A CT estará vigilante para garantir que
a modernidade da nova infraestrutura seja acompanhada pela dignidade de quem a
irá operar. O futuro da aviação em Portugal não se faz apenas com betão e aço;
faz-se com a experiência e o saber dos seus Trabalhadores.
Conflitos
internacionais-Impactos na Aviação
Num contexto global de crescente
instabilidade, acompanhamos com profunda preocupação o escalar dos conflitos
internacionais.
No sector aviação as consequências serão
diretamente proporcionais ao evoluir dos cenários. A volatilidade no custo do
petróleo e o seu impacto imediato na economia da aviação não poderá obviamente
ser ignorado.
A CT manter-se-á atenta para que
eventuais flutuações de mercado, decorrentes deste cenário geopolítico, não
sejam utilizadas como justificação para políticas contrárias aos interesses dos
Trabalhadores.
Todos recordamos o esforço solicitado
aos Trabalhadores na crise do Covid 19, situação que não queremos ver repetida.
Curiosamente não foi ainda reposto o esforço financeiro solicitado aos
Trabalhadores, mesmo quando ano após anos aumentamos significativamente os
lucros.
Conclusão
Nesta
viagem pelo Passado recente e pelo Presente da nossa empresa, fica clara
a dimensão dos desafios que enfrentamos. Entre decisões unilaterais de gestão e
políticas que põem em causa direitos adquiridos e a própria segurança
operacional, a Comissão de Trabalhadores mantém-se firme no seu propósito original,
a defesa intransigente dos interesses e direitos dos Trabalhadores.
Continuaremos
e não hesitaremos em denunciar a "despreocupação cultural" ou a
"autocracia gestionária", lutaremos sempre para que não se tornem a
norma na nossa casa.
O
nosso trabalho não se esgota na denúncia; estende-se à vigilância constante e à
representação dos vossos interesses onde quer que seja necessário, seja junto do
Órgão de Gestão da Empresa, a atual Comissão Executiva, ou nos diversos fóruns
nacionais ou internacionais, mesmo que isso implique como iremos explicar no
próximo comunicado, custos pessoais e financeiros aos membros desta CT.
O
Futuro da ANA depende da valorização real de quem a operacionaliza e faz
funcionar todos os dias.
Continuaremos
a ser a Vossa voz, sem concessões e sem interesses que não sejam os de quem
trabalha.
A união de todos é, e será sempre, a nossa maior força
contra a erosão dos nossos direitos.
Comissão de Trabalhadores
13 de março
de 2026
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